2 Minicontos sob Inspiração de Jonathan Swift

Miniconto #1

A fila que se estendia para fora da loja de discos às oito horas da manhã não me intimidou e foi com paciência e antecipação que assumi a última posição. Chovia um pouco e, encolhendo-me embaixo da marquise e deixando as minhas costas ao vento, pude evitar que o pôster que carregava cuidadosamente enrolado de encontro à barriga se molhasse. Todos ali partilhavam da mesma excitação e as impressões e comentários elogios ao vocalista da Gulliver  fizeram com que as horas de espera passassem saborosamente. Ao meio-dia, eu já cruzara a porta de entrada e, às três horas da tarde, vi-me enfim frente a frente com Jonathan. Identifiquei-me como o presidente do fã-clube local e recebi, em troca, uma dedicatória particularmente extensa de três linhas. Soube depois que esse houvera sido um favor especial, concedido, sem dúvida, à minha posição superior no universo de fãs, visto que alguns de meus conhecidos que passaram o dia naquela fila retornaram para casa com apenas um vago “Um abraço de Jonathan” em seus pôsteres.

Miniconto #2

Seis meses depois de ter saído daquela obra, passei em frente ao palacete em construção e notei que o imóvel estava vazio. Empurrei levemente a porta e me vi diante de um imponente salão no qual o piso branco de mármore refletia as luzes que entravam pela janela e de cujo meio pendia um lustre de cristal sobre o cômodo desprovido de móveis. Caminhei cautelosamente até embaixo daquele lustre e, quando lá cheguei, notei que eu houvera sujado o chão com a poeira de meu chinelo e que  as minhas pegadas eram visíveis sobre a pedra branca. Admirei um pouco mais o candelabro por baixo e me banhei em toda a sua magnificente brancura e transparência. Retirei minha camisa, então, e cuidadosamente limpei o assoalho enquanto me retirava pela porta de entrada.

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