Sebo ou livraria antiquária

Acordo cedo. Depois de um período de ausência, no qual permaneci visitando apenas livrarias comuns, resolvo voltar ao sebo. Me pergunto qual a diferença de um sebo para uma livraria antiquária. Talvez no sebo os livros estejam mais amontoados. Na livraria antiquária há mais cadeiras, móveis antigos, todo um clima de voltar no tempo, enquanto no sebo propriamente dito só mesmo os livros. Pouca organização. Quando muito um banquinho e uma escada. No sebo não há lugar pra mesas, decoração nem pensar. Apenas livros, o resto é custo de oportunidade.

Passo o olho pelas estantes. Será que consigo ler alguma coisa. O cheiro dos livros é um empecilho, mas a curiosidade me convence a não sair de mãos vazias. Folheio uma edição da Mondadori, Tutto Marlowe Investigatore, v1. Lembro que já li um dos que é considerado dos mais fracos livros de Chandler e gostei muito. Playback, não me recordo o título em português. Após ler a parte introdutória separo minha primeira compra. O livro contempla Finger Man, The Big Sleep, Farewell my Lovely, High Window e The lady in The lake, em italiano Il testimone, Il grande sonno, Addio, mia amata, Finestra Sul vuoto e In fondo al lago.

O segundo livro que me pego folheando é Kunst unserer Zeit, malerei und plastik mit 478 abbildungen. O livro foi editado em 1966. Há inclusive um capítulo destinado a arte sul-americana. Dentre as pinturas brasileiras vejo Lasar Segall e Portinari, este último considerado eines Titanen aus dem brasilianischen Hinterland. Curioso que dos artistas contemplados nas gravuras alguns me são completamente desconhecidos hoje. Comemoro a manutenção da fama dos brasileiros, afinal lá se vão 50 anos. Mais um livro que folhearei quando chegar em casa.

Passo sem sobressaltos a parte de literatura. O próximo livro a captar minha atenção já se encontra na área destinada aos livros técnicos. É a obra Virgílio Athayde Pinheiro, Noções de Geometria Descritiva. Os três volumes são de anos diferentes, sendo o primeiro de 1964. A simplicidade da exposição é cativante, o que somado à vontade de me aprofundar nos estudos da geometria criada por Gaspard Monge, não me deixam saída senão separar os três volumes e colocar na pilha de livros que acabava de se formar. Belas as capas coloridas.

Na mesma estante deparo-me com uma edição em português da obra O teorema de Godel e a Hipótese do Contínuo, coletânea de artigos cujo simples ato de folhear já foi suficiente para que  me decidisse pela sua aquisição. O único empecilho é o preço que me parece excessivo. Peço um desconto. Resposta: 10 %. É pouco para um livro de duzentos reais. Saio da loja e consulto a internet (novo por 150 no buscapé e usado 80 na estante virtual). Por ora desisto da aquisição.

Folheio então o volume 2 do nuovi elementi di matematica per il bienio delle scuole superiori, obra de N. Dodero, P. baroncini e D. Trezzi. Dou uma olhada no capítulo sobre estruturas algébricas. A apresentação é simples e bem ilustrada, o ideal para uma obra de geometria avançada. Passo pelo capítulo sobre transformações geométricas no espaço e após breve leitura resolvo incluir na lista. O capítulo sobre máquinas de Turing é o primeiro que leio ao chegar em casa.

Por fim, ainda na estante de técnicos na área de exatas encontro o Traité Élementaire de Physique de A Ganot editado em 1894 pela Libraire Hachete de Paris com 1025 gravuras intercaladas no texto, incluindo duas pranchas coloridas. Verifico que uma das pranchas coloridas corresponde ao espectro de coloração dos metais. Leio o primeiro capítulo e decido, mais um a entrar para a pilha.

Após pagar pelas novas aquisições e pensar no espaço necessário para guardar os livros penso que não gostaria de morar em um sebo. Ah, mas se fosse numa livraria antiquária, bem, até que não seria ruim. Vou-me embora com uma sacola de livros, na esperança de que após a devida limpeza, a poeira e o cheiro não sejam grandes obstáculos ao conhecimento.

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