Últimas palavras de Bento Santiago

O leito da morte (1895) – Edvard Munch

À beira da morte, sinto-me estimulado a reavaliar, leitor, a minha história, em uma nova e quiçá derradeira tentativa de unir as duas pontas de minha vida. Ficarão registradas aqui as principais linhas daquilo que essa tarefa tem acrescentado à minha já conturbada vida reflexiva.

Tenho convivido com algumas enfermeiras, que vêm cuidando do que restou de minha saúde; o modo como essas moças tratam os moribundos – como tratamos, nos minutos que antecedem a partida, os parentes distantes que conduzimos à estação, quando sua visita já nos começava a causar contratempos – despertou em mim um sentimento novo: estou finalmente naquela estação tão temida, aguardando o último trem da noite – não desta ou daquela noite, mas de outra maior. Tenho as malas prontas ou esqueci algo? Conseguirei um bom assento? Deus me conduza a um bom descanso! Não me fiz padre; mas, valei-me Nossa Senhora!, sempre nutri grande apreço pelo sacerdócio e pelas coisas da Igreja. O caso é que a voz, aquela voz de gemidos inefáveis, me dizia: serás pai… Na época não desejei com ela entrar em minúcias. É verdade que também não tive tempo. Quando adquiri, com padre Cabral, os rudimentos de metafísica que abriram o meu intelecto a questões de alguma profundidade, não tive fôlego para interrogar a voz; e já não havia tempo: era a tal tarde de novembro – e lá estava José Dias, na sala de nossa casa na Rua de Matacavalos, especulando com minha mãe sobre o meu futuro no seminário.

Aos quatorze anos faltava-me experiência das coisas da vida para tomar as rédeas da minha biografia. Se é certo que a sinceridade costuma visitar aqueles que estão com os dias contados, é preciso acrescentar que o amor próprio – que nos faz mentir sem rubores com vistas em lustrar a imagem que queremos registrar de nossa vida – nos deixa, sem aviso, e vai em busca de almas jovens sedentas de verniz. Digo isso para reconhecer perante ti, leitor, que para conduzir minha vida não me faltava experiência apenas; faltava-me também a necessária coragem. De tanto embarcar em sonhos alheios acabei como personagem secundário de uma trama que não escolhi. Quando decidi ser o dono do meu nariz já era tarde. Você já conhece minha história. Sou o ator principal da tragédia que escrevi na velhice. Sou Dom Casmurro. Porém, o Bentinho, aquele que confiava em José Dias, que desejava com todas as forças de sua alma ter um filho de Capitu, esse eu não consegui, por mais que tentasse, encontrar dentro de mim. Eu não dei por essa mudança.

Deitado aqui nesta cama que mal suporta minhas carnes, ansiosas pelo suspiro final, pergunto-me – e já agora não me importo se serei vítima de plágio (os mortos certamente têm coisas mais importantes para fazer): em que espelho ficou perdida a minha face?

As linhas que seguem são uma tentativa de me reconciliar com aquele jovem apaixonado. Se eu falhar, que Deus leve em conta, quando chegar a hora de analisar o meu curriculum vitae, esse meu esforço, sincero, de encontrar-me comigo mesmo.

Enquanto Capitu já se havia descoberto apaixonada por mim, eu, na aurora da minha vida, ingênuo, a tratava simplesmente como a minha amiga preferida. Capitu tomou consciência de seu amor por mim muito antes que eu descobrisse, pela boca de José Dias, a natureza de meus sentimentos. Hoje concluo que Capitu planejara, desde muito cedo, em sua cabecinha de adolescente, o nosso casamento. Na verdade eu embarquei nos planos que ela traçou no começo da adolescência. A repulsa que eu tinha pelo sacerdócio dinamizou a nossa amizade, que então passou a me parecer uma excelente alternativa ao seminário.

No alto de meus quinze anos eu me vi dividido entre dois planos de vida: um debuxado por minha mãe muito antes de minha concepção; outro, por Capitu, à minha revelia. Eu não fui o autor desses planos; simplesmente optei pelo que me pareceu mais agradável – como quem, não tendo uma fábrica de sorvetes, contenta-se em escolher, para refrescar, entre dois sabores mais ou menos apetitosos. Não me lembra ter refletido com sobriedade sobre qualquer uma das duas alternativas ou sobre se haveria uma terceira. Indo para o seminário, seria padre e não me casaria com Capitu; casando-me com Capitu, não seria padre. Esse era, em linhas gerais, o panorama da minha vida, o cenário e o figurino com os quais, a partir de então, tive de encenar a minha ópera.

Diante dessas duas alternativas não vi outra saída senão pedir auxílio a José Dias, o conselheiro da família. Na época isso me pareceu uma boa ideia. Hoje percebo que José Dias tinha o coração amargurado, repleto de frustrações. Seu sonho de adolescência era tornar-se médico e rico, estudar em Paris, vislumbrar nas ruínas das civilizações antigas os indícios da maravilhosa carreira que o aguardaria em seu país. Em razão de sua personalidade meticulosa, nunca suportou a ideia de se arranjar com uma companheira, com cujos desejos e particularidades ele provavelmente não conseguiria conviver. Com a alma tão perturbada, José Dias certamente não se harmonizou com o gênio de Capitu. Talvez ele receasse a possibilidade de que minha vida fosse determinada por Capitu. Parece-me, hoje, contudo, que boa parte da força que ele investiu em nossa relação encontrava origem, como ocorreu com Iago, em sua inveja e em sua amargura.

A influência de José Dias sobre minha alma foi muito grande. Foi ele quem me abriu as portas da vida ao dar nome a um sentimento, até então confuso, que começava a tomar forma dentro de mim. Foi nele que confiei para me livrar do seminário. José Dias, por ter assumido a minha proteção, provavelmente sentiu que tinha o dever, amaríssimo, de me advertir a respeito da personalidade de Capitu, conforme ele próprio a via. Entretanto, a notícia de que Capitu tinha olhos de “cigana oblíqua e dissimulada” entrou em minha alma juvenil como uma bomba de efeitos morais devastadores. Já no final da adolescência e no começo da vida adulta não fui capaz de reconstruir minha personalidade à luz daqueles “olhos de ressaca”. Por mais que eu tentasse encontrar referências seguras em outros lugares, era a presença de Capitu, seu olhar envolvente, que eu sempre encontrava, a me balançar e a me desconcertar. Sem pernas, eu ouvia, como a um mantra, a voz de José Dias advertindo-me: “cigana oblíqua, dissimulada…”. Demorei décadas até me livrar desse fascínio, que nem mesmo a morte de Capitu foi capaz de enfraquecer.

Enquanto escrevia a História dos Subúrbios fui adquirindo maior disciplina e melhor concentração; as visitas das moças a minha casa começaram a rarear, na mesma proporção em que diminuía minha paciência para investir em atenção e em criatividade na manutenção das relações líquidas (já disse que não me preocupam os plágios de que porventura eu vier a ser vítima) que com elas mantinha. Pude então refletir com maior isenção sobre os caminhos que minha vida tomou desde aquela tarde de novembro. Tratando agora as advertências de José Dias como teses – que necessitam, pois, passar pelo filtro do bom senso em busca de comprovação – e não como dogmas que me devam ditar o conteúdo da consciência e a direção da conduta (como, para minha desgraça, ocorreu no final da minha adolescência) – fui-me lembrando de alguns fatos que, já agora, sob esse novo olhar, enfraquecem a conclusão, precipitada, que registrei no último parágrafo de minha autobiografia. Trato aqui da conclusão, que por muito tempo me pesou sobre os ombros, de que Capitu e meu melhor amigo me traíram.

Lembro-me, por exemplo, que Capitu reagiu violentamente quando lhe falei a respeito da promessa de minha mãe de me meter no seminário; lembrei-me de sua imensa alegria no dia do nosso casamento; de seu olhar de definitiva felicidade em nossa noite de núpcias. Em tudo isso não encontro eu hoje qualquer indício de dissimulação; nossas almas soavam no mesmo tom, tudo convergia para o Céu; nada em nossa relação era oblíquo, nada era verdadeiramente obscuro.

Há mais. A indignação com que Capitu reagiu quando eu disse a Ezequiel que não era seu pai foi, parece-me hoje, a uma saudável distância dos acontecimentos, muito sincera. Morto José Dias – e já parecendo um inofensivo saco de ossos a influência que ele teve sobre minha alma perturbada – também posso ver, hoje, que ali também não havia dissimulação.

Depois que deixei Capituzinha na Suíça conheci dezenas de mulheres e mantive com elas relações mais ou menos descompromissadas; naveguei, aí então, sucessivamente, por mares revoltos, por rios caudalosos, por lagos de águas paradas; viajei por águas as mais diversas. No fundo delas vi olhares que me comunicavam os mais variados sentimentos: olhares dissimulados, olhares carentes – ora decididos, ora vacilantes; vi de tudo. A meditação feita nesses olhares e a análise cuidadosa das demandas que naqueles breves instantes me eram dirigidas através daquelas vagas (em si mesmas abertas e fechadas, nos movimentos imprevisíveis das marés que atormentavam aquelas almas femininas, escondidas no fundo daqueles oceanos repletos de contradições) acabaram tingindo a honra de Capitu, aos meus olhos, de novas cores, muito mais agradáveis e melhor ajustadas àquela menina que conheci na Rua de Matacavalos.

Lembro-me hoje daquela manhã em que quase matei nosso filho e não vejo em Capitu indício de culpa. Posso ver agora em seus olhos, como se os contemplasse à mesma distância que os tinha no dia de nosso primeiro beijo, uma lição que só muito mais tarde, depois de sua morte, fui apreender em sua inteireza: todo aquele encanto, aquele olhar sedutor de Capituzinha adolescente – de que por muito tempo julguei não ser merecedor, nos quais jurava eu ver o endereço de outros destinatários – eram meus, só meus; não tinham outro senhor e outra razão de ser senão me envolver e me prender naquela servidão recíproca. Capitu assumira esses trejeitos na infância, se bem que os já devesse trazer, em forma de rascunho, desde o ventre de sua mãe; à sombra de nosso convívio juvenil, descobria as manhas da vida humana e em sua cabecinha viu que me lançar de surpresa e desarmado em um mar revolto por sentimentos era o modo mais seguro de me seduzir, de me hipnotizar, de não perder o meu afeto. Naquela manhã de domingo, diante daquela acusação de adultério, Capitu tentava me dizer, com timbre seco de firme indignação, que minha ingratidão a machucara muito; buscava mostrar-me que eu, Bento Santiago, era o dono de seus olhos de cigana – aqueles olhos eram meus, eram de Bentinho, aquele que não encontro eu cá.

Ao repudiar esse olhar – como quem se recusa a receber uma correspondência suspeita, entregue por engano em sua residência – e ao imputar-lhe aquela mancha de infidelidade, na verdade eu dava prova certa de não tê-la compreendido, certificava a nossa falta de comunhão. Além de não ter conseguido unir as duas pontas de minha vida, hoje vejo que também não consegui unir a ponta do meu coração ao de Capitu.

facebooktwittergoogle_plusmail