O Incompetente

Theodor Gompfert nasceu em 15.09.74 na costa sul da Polinésia. Em agosto de 86, enquanto Platini desperdiçava um pênalti, viajou com a família para a costa sul do Brasil. Na terra brasilis destacou-se como melhor aluno da escola pública de Itanhumirim, vindo a receber a medalha de honra. Ao se formar pela Universidade Federal Fluminense foi elevado ao doutorado que concluiu sem maiores problemas.

Sua vida vinha bem até 27 de outubro de 2012, época em que após uma discussão com um colega de trabalho na Industrie Petroquimique San Martin foi chamado de incompetente por um funcionário que lhe era subordinado. Naquela noite não conseguiu dormir. Assustava-lhe o fantasma de sua humanidade. A partir daí os pesadelos lhe eram frequentes. Sonhava com um cardume de incompetentes que às vezes eram ratos, outras vezes peixes, os quais independente da forma devoravam-lhe o estômago e apossavam-se da sua alma.

Nascia dali um novo Gompfert, menos determinado, mais inseguro. Não que lhe fosse estranho, mas é como se este estivesse latente esperando um evento casual que o fizesse surgir das cinzas do Gompfert anterior. O antigo Gompfert já não existia mais. Era como se o pacato Jekill desse lugar ao desesperado Hyde.

Foi esse Gompfert que conheci em setembro de 2014. Perambulava pelas ruas sem trabalhar, vivendo da caridade alheia. Não sabia se e o que iria comer no dia seguinte e isso tampouco lhe importava. Não abandonou, no entanto, o hábito de leitura. Lembro quando o questionei o porquê de não voltar ao trabalho. Respondeu-me secamente que preferiria não fazê-lo. Alegrei-me ao perceber que ainda lia Bartleby.

Nosso último contato foi na casa de uma amiga comum. Após terminada a refeição, dois homens compareceram para levá-lo. Nunca mais tive notícias dele. Pensei em chamar a polícia mas silenciei ao pensar que talvez quisesse apenas não ser incomodado. Pelo mesmo motivo não leio mais jornais. Gela-me o sangue a possibilidade de reencontrá-lo. O presente relato foi escrito a pedido do meu psicanalista. Acredito que ao botar pra fora os relatos da minha vida posso me livrar de pesadelos como um que me é recorrente no qual um toureiro tem seu olho dilacerado em uma tourada. Espero que ao redigir esse relato esteja enfim curado.

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