A Fé dos Animais, por H.G. Wells

Naquela cabana escura, aquelas grotescas figuras pálidas se espalhavam aqui e ali, esparsamente iluminadas, balançando em uníssono e entoando,

“Não andar em Quatro; essa é a Lei. Não somos nós Homens?

“Não chupar a Água; essa é a Lei. Não somos nós Homens?

“Não comer Peixe ou Carne; essa é a Lei. Não somos nós Homens?

“Não arranhar a Casca das Árvores; essa é a Lei. Não somos nós Homens?

“Não perseguir outros Homens; essa é a Lei. Não somos nós Homens?

E assim seguiam as proibições de atos banais até tudo aquilo que eu então pensei serem as mais insanas, mais improváveis, e mais indecentes coisas que alguém poderia conceber. Um tipo de fervor rítmico se apossou de todos nós;  balbuciávamos e balançávamos mais e mais rápido, repetindo essa inusitada Lei. Superficialmente também eu fora contaminado pelos brutos, mas bem ao fundo digladiavam em mim o riso e o asco. Percorremos uma longa lista de proibições, e então o coro se voltou a uma nova fórmula.

“Dele é a Casa da Dor.

“Dele é a Mão que faz.

“Dele é a Mão que fere.

“Dele é a Mão que cura.

E assim seguia uma longa série de, em sua maioria, incompreensíveis afirmações sobre Ele, quem quer que fosse. Eu me inclinaria a pensar que era um sonho, mas nunca antes eu ouvira cantos em sonhos.

H.G. Wells, A Ilha do Dr. Moreau, 1896

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