Demasiado Humano

Humano mais humano

Lendo O Humano mais Humano, livro de Brian Christian que me foi apontado pelo Bruno Oliveira, e que recomendo como leitura das mais prazerosas, topei com a menção a uma Cynthia Clay, quem, em uma competição de Teste de Turing, levou os juízes a acreditar que fosse um programa de computador porque, segundo o consenso que se formou, “ninguém sabe tanto sobre Shakespeare”. A competição daquele ano de 1991, destinada a determinar aqueles programas de computador que melhor emulam a interação humana, adotou como tema obrigatório das conversas entre juízes, programas-competidores e pessoas de verdade, por meio de um chat de texto, o clássico autor inglês, e Cynthia Clay, que era uma especialista em Shakespeare, foi considerada competente demais. Três dos juízes não hesitaram em classificá-la como não-humana. Parafraseando o título do livro, talvez ela fosse demasiado humana.

Ser considerado competente demais para ser humano, embora possa soar ofensivo a alguns, tende a ser um signo de elevação, o que me leva a essa denominação de demasiado humano. Foi o próprio Bruno Oliveira quem me recordou, na semana passada, que Philip K. Dick acusou, em uma carta ao FBI, o também escritor de ficção científica Stanislaw Lem de não ser uma pessoa, mas apenas um nome empregado por um largo “comitê”. Na visão de Dick, Lem não podia ser uma pessoa porque, entre outras razões “escreve em variados estilos”, além de, ora dominar, ora não dominar línguas estrangeiras. Ser considerado um coletivo de pessoas por conta da capacidade de escrever em diversos estilos dificilmente deixará de arrancar satisfação do escritor demasiado humano.

No universo do xadrez, um dos momentos mais marcantes da meteórica carreira do ex-campeão mundial Mikhail Tal foi ter enfrentado Pal Benko, seu adversário na partida final do Torneio de Candidatos de 1959 em Belgrado, enquanto este usava óculos escuros para se proteger dos supostos poderes de “hipnose” de Tal. Aqui, como nas outras oportunidades, uma acusação de que alguém realiza algo além dos limites que se espera de um ser humano, longe de insultar, coroa de reconhecimento um talento excepcional.

palbenko

A defesa de Benko contra Tal

Outro demasiado humano que me vem à memória é Lennart Green, quem apresentou um truque com cartas, na competição mundial da Fédération Internationale des Sociétés Magiques de 1989, com tamanha habilidade que foi desclassificado porque, na visão dos juízes, ele teria contado com o apoio secreto da pessoa da plateia que escolhera para embaralhar. Haveria, então, uma trapaça por conluio. Quando, na próxima competição mundial, em 1991, ele reapresentou o mesmo número, solicitando que os próprios juízes embaralhassem as cartas, foi agraciado com o primeiro lugar.

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