As montanhas russas e o Kraken

No primeiro episódio de caverna do dragão os protagonistas são transferidos do mundo real para o mundo imaginário por meio de uma roller coaster. Não é sem motivo que esses objetos fantásticos que nos Estados Unidos não tem seu nome vinculado à ex-potência rival nos anos da guerra fria, representam uma ponte entre o real e o imaginário. A proeza de revogar a lei da gravidade, mesmo que o seja por um curto espaço de tempo, é daquelas que só encontra paralelos no mundo dos sonhos, nas viagens espaciais e talvez em algumas experiências religiosas.

What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?” (Tyger, William Blake)

Talvez daí o fascínio causados por brinquedos como o Expedition Everest, o Rockit, a Sheikra, a Kumba, o Montu, a Manta e, meu predileto, o Kraken. Com um custo estimado de 20 milhões de dólares essa montanha russa sem chão de 1273 metros, abrange 7 inversões, incluindo 2 loops verticais, um loop de mergulho, uma rodada de gravidade zero, uma rodada em formato cobra e uma em formato saca-rolha. O seu traçado bem ilustra as proezas modernas do cálculo diferencial, sem deixar de evocar na forma o monstro marinho cuja descrição fantástica se deve ao clérigo Erick Pontoppidan no seu Det Forste Forsorg paa Norges Naturlige Historie.

Se a obra do clérigo lembra a história natural de Plinio por sua credulidade, não é de se olvidar que a obra projetada por Werner Stengel da Bolliger & Mabillard Consulting Engineers Inc. apresenta ainda mais similaridade com o lendário monstro descrito por Borges no seu Manual de Zoologia Fantástica. Nesse ponto o locus da atração em um parque temático cujo o centro engloba a fauna aquática parece não ser despropositado. Situação semelhante é observada no Tomo 3, Tabula 2, do Cabinet of Natural Curiosities de Albertus Seba, em que monstro é colocado próximo a anêmonas e animais aquáticos assemelhados (tomo 3, tabula 1).

Após ver golfinhos, baleias, leões marinhos e pinguins, escorregar pelos braços desse Maelstrom de aço cujas espirais atingem mais de 100 km por hora sem, no entanto, perder a suavidade, não deixa de ser também uma típica experiência marinha, só comparável em prazer e assombro à leitura de um conto de Poe ou à descrição dos seres imaginários mencionados por Borges. Mas se como diria Magrite um cachimbo não é um cachimbo, o Kraken também não é o Kraken. O Kraken é um tremor de terra, uma erupção vulcânica marinha, um medo sórdido e uma visão de inúmeros marinheiros que ao tentar explicar o então inexplicável, imaginaram um monstro. Monstro que na imaginação de Werner Stengel se tornou uma obra de arte e simultaneamente uma montanha russa.

Como dizia Tennyson, nas profundezas do mar aberto o Kraken permanece dormindo seu sono sem sonho até o último fogo arder as profundezas. Então para ser visto por homens e anjos ele se elevará à superfície e morrerá. Enquanto isso não acontece, permanecemos no mundo real em que um Kraken e uma montanha russa podem ser a mesma coisa.

 

Bibliografia:

– Kraken em Albertus Seba, Cabinet of Natural Curiosities, Taschen, 1734, p. 223

– Kraken em Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, Manuale di Zoologia fantastica, Einaudi 1998, p. 89

– Kraken em Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, El libro de los seres imaginarios, Emencé, 2010, p. 131

– The Kraken, em Alfred Lord Tennyson, Poems, Chiefly Lyrical, London: Effingham Wilson, Royal Exchange, Cornhill, 1830, p. 154

-Octopus em Caspar Henderson, The book of barely imagined beings, University of Chicago Press, 2013, p. 225-237

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