Um pseudônimo brasileiro para Agatha Christie

Em uma recente visita a um sebo, deparei com o volume número 9 da revista A Novela, publicada pela Livraria do Globo , sob direção intelectual de Érico Veríssimo. A Novela é, por si só, um marco importante na história da literatura no Brasil, tendo, a partir de 1936, trazido a lume algumas das primeiras traduções de famosos livros da literatura estrangeira para a língua portuguesa. A título de exemplo, Denise Bottmann, em seu blog Não Gosto de Plágio, anota que a primeira tradução no Brasil de A Queda da Casa de Usher, de Poe, se deu em um dos volumes de A Novela.

O volume 9, de junho de 1937, além de um agradável surpresa que compartilho abaixo, e capa e ilustrações de Nelson Boeira Faedrich, trouxe como contéudo:

  • A Aventura de Doris Hart – Vicky Baum (tradução de Gilberto Miranda);
  • Markheim – R.L. Stevenson;
  • O Caolho – Karl May (em continuação);
  • De Murzuk a Kairwan – Karl May;
  • 4 Cães Fizeram Justiça – Giovani Papini
  • Sempre Bela – Jacques Constant

O que mais me chamou a atenção, contudo, foi o resultado de um concurso, sob o título de “Quem matou o Gangster Cassetti?”. A natureza inusitada do que ali se anuncia é tamanha que compartilho abaixo fotos das páginas pertinentes da revista. Aparentemente, o Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, foi publicado em partes em números anteriores da A Novela, que realizou um concurso entre seus leitores para que tentassem adivinhar os culpados pelo assassinato. De forma a que os leitores não pudessem se socorrer da versão original em inglês para chegar à conclusão acertada, a obra de Agatha Christe foi publicada sob o título de Um Crime no Expresso de Stambul, omitindo-se o nome da escritora inglesa, que foi substituído pelo pseudônimo Sir Ronald MacMunn. De fato, no Não Gosto de Plágio, pode-se verificar que, entre os textos que compuseram o volume 5 d’A Novela, está a continuação desse misterioso livro de Sir Ronald MacMunn.

Nove pessoas adivinharam a correta solução do crime e concorreram em um sorteio à distribuição dos prêmios. Somente um certo grau de isolamento brasileiro da literatura universal pode justificar que se pudesse realizar um empreendimento dessa natureza. Não é difícil perceber que a ocultação do verdadeiro título de uma obra de uma escritora tão aclamada como Agatha Christie teria sido impossível na era da internet. Por outro lado, pesquisa no google parece indicar que a identificação de Sir Ronald MacMunn com Agatha Christie, na data da publicação deste post, ainda não havia chegado ao espaço cibernético.

 

 

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