Miniconto sob Inspiração de Unamuno

Hugo de Raza se encantava com os livros de maneira absoluta, porque percebeu que as páginas de uma história colorem toda a realidade, tornando ele mesmo uma personagem de uma trama maior. Assim, diariamente colhe um livro de sua biblioteca antes de sair de casa, para que sua forma de enxergar o mundo seja influenciada pelo que lê. Pelo menos é o que crê, mas, na verdade, os romances influenciam os eventos do dia, tingindo-os com as expectativas derivadas de sua leitura diária.

Hugo de Raza leu, no dia que interessa a esta história, uma obra que narrava o prazer da convivência familiar para um homem solteiro como ele. Feliz com aquilo que lhe parecia ser uma ótima sugestão, ainda no meio da leitura fecha o exemplar, e telefona para seu irmão, convidando-o a que viesse almoçar em sua casa e trouxesse seu sobrinho. Deposita o romance sobre a mesa da biblioteca e prepara a simples refeição que servirá. Seu irmão e seu sobrinho são as encarnações dos personagens do livro que lera e Hugo se espanta em como a vida se ocupa em reencenar os eventos da literatura.

Sentado no sofá após o almoço, tomando café, uma dor aguda no lado esquerdo de seu peito e a ausência de seu sobrinho da sala o sobressaltaram. Um presságio que lhe desceu frio na coluna o levou à biblioteca, onde encontrou o sobrinho lendo o livro que deixara sobre a mesa. Assustado e vencendo a dor que lhe apunhalava o peito, Hugo de Raza toma a obra das mãos da criança para ler a única palavra que adorna a última folha: fim.

 

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