Truque Mental (Robert Sheckley)

Em 27 de abril de 1877, o visionário Edward Page Mitchel imaginou a possibilidade de transferir a mente de um corpo a outro (in Exchanging their souls, The Sun, edição de 27.04.1877). O que antes era concebível apenas nas crenças religiosas em contexto de reencarnação pós morte ou em textos fantásticos como o asno de ouro e seus sucessores passou desde então a ter sua contraparte no mundo científico.

A partir daí torna-se possível a construção do conceito moderno de avatar, entendido este como um corpo que pode receber qualquer mente que se dispõe a assumir e controlá-lo por um certo período de tempo. Nessa perspectiva o corpo passa a ser similar a uma roupa que pode ser usada e trocada a depender da vontade do usuário. A ideia que já foi usada em romances como Vice versa de 1882, dando inclusive origem a filme homônimo, ganha novo impulso com a ficção científica de Robert Sheckley.

Escrito em 1966, Truque Mental narra a história de Marvin Flynn. Em um futuro no qual as viagens interestelares são demasiadamente custosas, um subterfúgio para conhecer planetas distantes passa a ser o chamado truque mental, por meio do qual uma pessoa assume temporariamente o corpo de outra. Ao fazer uma viagem a Marte utilizando-se do referido procedimento, o protagonista descobre que foi vítima de um estelionato, tendo perdido seu corpo terreno e sendo obrigado a devolver o corpo que alugou em Marte. Para não se ver vítima da morte por ausência de corpo, o personagem recorre a um mercado negro, passando a ocupar corpos diferentes no decorrer da ação.

As passagens que se sucedem nesse asno de ouro interestelar as vezes lembram Kafka pelo seu processo inusitado, Hesse pela semelhança com o seu Tratado do lobo estepário e Carroll pela imaginação nonsense que permeia a obra. Resta dar a Marvin um conselho que bem se adapta ao espírito do autor que o concebeu:

Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!

Se a obra de Sheckley carece do cientificismo que talvez inspirou Page Mitchell, resta a mesma a sua contribuição para abertura das portas que estando fechadas por uma visão racionalista pura, poderão se abrir para receber personagens como Joseph K, Hermine, Alice, Pablo e Humpty Dumpy, os quais certamente se sentiriam em casa.

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