Seis Pence, um conto de Katherine Mansfield

As crianças são criaturinhas inexplicáveis. A troco de que um rapazito como Dick, em geral bom como ouro, sensível, afetuoso, obediente e maravilhosamente sensato para a sua idade – a troco de havia de ter caprichos e, sem o menor aviso, transformar-se de repente num “cachorro louco”, como lhe chamavam as irmãs? Nesses momentos ninguém mais podia com a vida dele.

_ Dicky, venha cá! Venha cá, moço, já-já! Não ouve sua mãe chamar: Dicky!

Mas Dicky não ia. Oh, ele tinha ouvido muito bem. Uma risadinha clara e contente era a sua única resposta. E deitava a correr: escondia-se, correndo pelo meio do feno não cortado que ase achava sobe o canteiro de relva: passava como uma bala pelo galpão, precipitando-se para a horta. De lá, arisco, ficava espiando a mãe, de trás dos troncos musgosos das macieiras, dando pulos como um índio selvagem.

A coisa tinha começado à hora do chá das crianças. Enquanto a mãe de Dick e a Sra. Spears, que estava passando a tarde com ela, se achavam tranquilamente sentadas com suas costuras na sala de visitas, passara-se a seguinte cena, segundo contara a criadinha:

Estavam eles comendo a primeira fatia de pão com manteiga comportadinhos e limpos com a gente gosta. A camareira tinha acabado de despejar o leite e a água, quando Dicky de repente agarrou o prato de pão, pô-lo de boca para baixo na cabeça, segurando ao mesmo tempo a faca de pão.

_ Olhem para mim! – gritou.

Suas irmãs, sobressaltadas, olhavam e antes que a criada pudesse aproximar-se dele, o prato oscilou, escorregou e caiu no chão, partindo-se em cacos. Nesse ponto horrível, as meninas ergueram as vozes e começaram a guinchar com toda a força.

_ Mamãe, venha ver o que o Dicky fez!

_ O Dicky quebrou um prato grande!

_ Venha fazer o Dicky ficar quieto. Mamãe!

Pode-se imaginar a corrida em que Mamãe veio. Chegou, porém, tarde demais. Dicky tinha já saltado da cadeira. Correu para as janelas-portas, saiu para o alpendre, e lá ficou ela a tirar e a meter o dedo no dedal, desamparadamente.

Que era que ia fazer? Não podia sair à caça do filho. Não podia correr atrás de Dicky pelo meio das pereiras e ameixeiras. Seria uma coisa indigna. Mais que aborrecida: exasperante. Especialmente quando Mrs. Spears, cujos dois filhos eram crianças exemplares, estava a espera-la na sala de visitas.

_ Muito bem, Dicky – gritou ela. – Terei de pensar num meio de te castigar.

_  Não me importo – retrucou a vozinha aguda. De novo explodiu a risada vibrante. O menino estava absolutamente fora de si…

_ Oh, Mrs. Spears, não sei como me desculpar por tê-la deixado sozinha assim…

_ Não faz mal, Mrs. Bendall – disse Mrs. Spears com sua voz macia e açucarada, erguendo as sobrancelhas naquele seu jeito. Pareceu sorrir para si mesma quando recomeçou o trabalho.

_ Essas coisas pequeninas acontecem de vez em quando. Só espero que não seja nada de sério.

_ Foi Dicky – disse Mrs. Bendall, procurando com um ar um pouco desesperançado a sua única agulha fina. E explicou todo o caso a Mrs. Spears.

_ E o pior de tudo é que não sei como curá-lo. Quando o menino está desse jeito nada parece em seu espírito o menor efeito.

Mrs. Spears abriu seus olhos pálidos.

_ Nem mesmo umas chicotadas? – perguntou.

Mas Mrs. Bendall, enfiando a linha na agulha, franziu os lábios.

_ Nunca surramos as crianças. As meninas parece que nunca precisaram. E Dicky é tão pequeno… e o único rapaz. De certo modo…

_ Oh, minha querida, replicou a outra – e largando a costura – Não me admiro de Dicky ter esses pequenos acessos. Naturalmente não te importas de eu dizer isto… Mas estou certa de que cometes uma grande erro por tentares educar as crianças sem lhes passar o chicote. Na verdade não há nada que o substitua. E falo com experiência, minha querida. Eu costumava experimentar meios mais suaves – Mrs. Spears inspirou o ar, produzindo um leve sonido sibilante – por exemplo: botar sabão na língua dos meninos, sabão amarelo; ou fazê-los ficarem de pé em cima da mesa toda a tarde de sábado… Mas acredite… não há como entregar as crianças ao pai.

Mrs. Bendall no fundo do coração estava tremendamente escandalizada com a história do sabão amarelo. Mas Mrs. Spears parecia aceitar a cosa com tanta naturalidade, que ela também passou a fazer o mesmo.

_ Ao pai? – perguntou. – Então não surras os rapazes tu mesma?

_ Nunca. – Mrs. Spears também pareceu escandalizada com a ideia. – Não acho que caiba à mãe surrar os filhos. É obrigação do pai. E, além disso, o pai impressiona muito mais as crianças.

_ Sim, eu imagino… – disse Mrs. Bendall debilmente.

_ Agora os meus meninos – Mrs. Spears sorriu com bondade para a amiga encorajando-a – haviam de se portar como Dicky, se não tivessem medo. Mas como têm…

_ Oh, os seus rapazes são modelinhos perfeitos – exclamou Mrs. Bendall. Não se encontrariam em parte alguma meninos mais quietos e bem comportados na presença dos grandes.

De fato, as visitas de Mrs. Spears muitas vezes iam ao ponto de dizer que a gente nem chegava a saber que havia crianças na casa.

No “hall” da frente, debaixo dum grande quadro representando velhos monges gordos e joviais a pescar à beira do irio, via-se um chicote grosso e escuro que pertencera ao pai de Mrs. Spears. E por alguma razão os rapazes preferiam brincar fora da vista dele, atrás do canil na casinha das ferramentas, ou nas proximidades da caixa do lixo.

_ É um erro tão grande – suspirou Mrs. Spears, respirando aceleradamente, ao dobrar sua costura – a gente mostrar-se fraca com os filhos quando eles são pequenos. É um erro tão triste e tão fácil de cometer…. Depois não é bom para a criança. Devemos nos lembrar sempre disso. Agora, a travessurinha de Dicky desta tarde pareceu-me ter sido providencial. Foi uma maneira do menino mostrar que precisa de chicote.

_ Acha mesmo? – Mrs. Bendall era uma criaturinha fraca e aquilo a impressionava muito.

_ Acho, estou certa disso. E umas chicotadas de vez em quando – gritou Mrs. Spears com um ar verdadeiramente profissional – administrada pelo pai, servirá de lembrete e há de te poupar muito trabalho e incômodos futuros. Acredita, minha querida.

Pôs sua mão seca e fria na de Mrs. Bendall.

_ Vou falar a Edward logo que ele chegar. – disse com firmeza a mãe de Dicky.

As crianças tinham ido para a cama antes que a porta do jardim batesse e o pai de Dicky subisse aos trambolhões os degraus de cimento, carregando a sua bicicleta. Estava com calor, cheio de poeira e de cansaço.

Mas naquele momento Mrs. Bendall, que tinha ficado excitadíssima ao pensar no novo plano, foi abrir a porta em pessoa.

_ Oh, Edward, dou graças por teres vindo para casa – exclamou.

_ Mas… que foi que aconteceu? – Edward largou a bicicleta e tirou o chapéu. Havia uma marca vermelha na sua tesa, bem onde o chapéu tinha apertado. – Que foi que houve?

_ Vem, vem para a sala – disse Mrs. Bendall, falando com rapidez. – Eu nem te posso contar como se portou o travesso do Dicky. Não fazes uma ideia… como um guri daquela idade pode ser travesso! Esteve simplesmente pavoroso. Não pude com a vida dele. Tentei tudo, Edward, mas nada deu resultado. A única coisa que tens a fazer – terminou ela sem respiração – é dar-lhes umas chicotadas. Tu é que deves surra nele, Edward.

No canto da sala havia uma estante e na repartição bem de cima achava-se um urso pardo de porcelana com língua pintada. Parecia ali na sombra estar de dentes arreganhados para o pai de Dicky, dizendo: “Viva! Foi para isto que vieste para casa!”

_ Mas por que diabo hei de começar a surrar nele? – perguntou Edward, olhando fixamente para o urso. – Nunca se fez isso.

_ Porque – respondeu a mulher. – não vês que é a única coisa que tens a fazer? Não posso controlar a criança. – As palavras dela voavam-lhe dos lábios. Envolviam-no, batiam-lhe na cabeça cansada. – Não podemos pagar uma nurse. A criada tem mais que fazer. Essas travessuras são incríveis. Não compreendes, Edward, não podes compreender, estás todo o dia no escritório.

O urso botava a língua. A voz lamurienta continuou. Edward mergulhou numa cadeira.

_ Com que é que eu vou surrar o Dicky? – perguntou fracamente.

_ Como teu chinelo, está claro – respondeu a mulher. E ela se ajoelhou para descalçar as botinas poeirentas do marido.

_ Oh, Edward – lamentou-se ela – entraste na varanda com os sapatos neste estado! Ora, francamente…

_ Olha, já basta – Edward quase a empurrou – Dá-me aquela chinela. – Subiu as escadas. Sentia-se como que enredado numa rede escura. E agora ele queria bater em Dicky. Sim – fossem para o diabo! – ele queria bater em alguma coisa. Meus Deu, que vida! A poeira estava ainda em seus olhos quentes; seus braços pesavam.

Abriu com um repelão a porta do quarto de Dicky. O menino estava no meio da peça, metido numa camisa de dormir. À vista dele, o coração de Edward bateu acelerado, numa pulsação quente de raiva.

_ Bom, Dicky, tu sabes para que foi que vim…

Dicky não deu resposta.

_ Vim para te dar umas chineladas.

Nenhuma resposta.

_ Levanta a camisa.

Neste ponto Dicky ergueu os olhos. Ficou muito corado, dum rosado profundo.

_ Levantar? – sussurrou ele.

_ Vem cá. Anda depressa – disse Edward e, segurando o chinelo, deu em Dicky três palmadas fortes.

_ Isto há de te ensinar a te portares como gente com tua mãe.

Dicky ficou onde estava, com a cabeça caída.

_ Avia-te! Pula para a cama.

O rapaz mesmo assim não se moveu. Mas com voz trêmula disse:

_ Não escovei ainda os dentes, paizinho.

_ Hein? Que história é essa?

Dicky ergueu a cabeça. Seus lábios tremiam, mas os olhos estavam secos. Ele não soltara um ai nem derramara uma lágrima. Apenas engolira sem eco e dissera, com voz rouca.

_ Não escovei ainda os dentes, paizinho.

Mas à vista daquela carinha, Edward voltou-se e, sem saber o que fazia, precipitou-se para fora do quarto, desceu as escadas e entrou no jardim. Santo Deus! Que fizera ele? Saiu a caminhar, escondeu-se na sombra da parreira, ao pé da sebe. Surrara Dicky – surrara o homenzinho com uma chinela – e a troco de quê? Nem ele mesmo sabia.

O menino não chorara. Nem uma lágrima. Se ao menos tivesse chorado ou ficado com raiva. Mas aquele “paizinho”! E de novo ele ouviu o sussurro trêmulo. Perdoando, assim sem uma palavra. Mas ele é que nunca se perdoaria a si mesmo – nunca. Covarde! Idiota! Bruto! E de súbito Edward lembrou-se do tempo em que Dicky caíra de cima de seus joelhos e dera um mau jeito no pulso. Nem então havia chorado. E fora nesse heroizinho que ele acabara de bater.

Era preciso fazer alguma coisa, pensou Edward. Voltou para casa, subiu as escadas, entrou no quarto de Dicky. O rapazito estava estendido na cama. Na meia luz sua cabeça escura, com a franja quadrada, mostrava-se em cheio contra o amarelo pálido. Ele estava deitado em absoluta imobilidade e nem agora chorava. Edward fechou a porta e recostou-se nela. O que ele queria fazer era ajoelhar-se perto da cama do filho e chorar, pedindo perdão. Mas isso está claro, é coisa que não se pode fazer. Sentiu-se desajeitado e seu coração estava confrangido.

_ Não estás dormindo, Dicky? – perguntou de leve.

_ Não, paizinho.

Edward aproximou-se e sentou-se na cama do filho. Dicky olhou para ele através de seus longos cílios.

_Não estás sentindo nada, amigo velho, não é? – indagou Edward num meio-cochicho.

_ Não, paizinho – respondeu Dicky.

Edward estendeu a mão e com cuidado segurou a mão pequena e morna do menino.

_ Tu… tu não deves pensar mais no que aconteceu há pouco, homenzinho – disse ele com voz rouca. – Estás ouvindo? Tudo agora está acabado. Esquecido. Nunca mais aquilo vai acontecer. Estás ouvindo?

_ Estou, paizinho.

_ Então o que tens a fazer agora é ficar alegre, camarada velho – disse Edward – e sorriu.

E ele próprio tentou achar uma desculpa para sorrir.

_ Esquecer tudo… hein? Homenzinho… Amigo velho…

Dicky estava deitado como antes. Aquilo era terrível. Edward ergueu-se num salto e foi até a janela. Estava quase escuro no jardim. A criada corria dum lado para outro, tirando roupas brancas de cima de arbustos e empilhando-as no braço.

Mas no céu sem limites a estrela vespertina brilhava e um grande eucalipto, negro contra a luminosidade pálida, movia suas folhas suavemente. Tudo isto ele viu, enquanto procurava nos bolsos das calças o seu dinheiro.

Trazendo-o para fora, escolheu uma moeda de seis pence e voltou para Dicky.

_ Aqui tens, amigo velho. Compra alguma coisa para ti – disse Edward maciamente, deixando a moedinha no travesseiro de Dicky.

Mas podia aquilo – podia mesmo uma moeda de seis pence apagar o que tinha acontecido?

 

 


Este conto, em tradução anônima, foi publicado no número 7 da revista A Novela, de abril de 1937. Segundo o nosso melhor entendimento, o texto aqui compartilhado já se encontra em domínio público.

 

 

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