2015: Um ano entre livros

Encerrado o ano, nada como fazer um balanço. Contemplar retrospectivamente o conjunto das influências que ingressaram em 2015 e que produziram o eu, versão 2016. Foi um ano difícil do ponto de vista literário. Razões profissionais e de saúde fizeram com que não pudesse dedicar o tempo que queria à literatura, sendo que minha curiosidade acabou me direcionando a leituras que saiam do campo estrito da ficção me desviando para áreas as mais diversas possíveis.

Mantive, no entanto, algumas de minhas obsessões. Lembro que após uma exposição de Jeff Koons em uma das salas e outra de Frank Gehry adquiri na livraria do Centre Pompidou uma edição de Unpacking my library: architects and their books. Posso continuar não entendendo nada de arquitetura, entretanto a leitura desse livro magnífico me permitiu concluir que o projeto de uma bela estante feita por um arquiteto para uso próprio não é obra do acaso, mas resultado dos próprios livros que serão ali colocados. Estimulante encontrar uma função recursiva em uma obra ilustrada com fotografias de bibliotecas salpicada por comentários de arquitetos sobre seus livros de cabeceira. Mais estimulante ainda saber que os livros compõe a variável de entrada que define a estante que irá recebê-los.

Unpacking my library architects and their book

Na filosofia foi também um ano significativo. Apesar da minha aberta preferência pelos filósofos pré-socráticos, 2015 foi o ano em que supri parte das minhas deficiências na matéria lendo o que faltava das obras completas de Platão, excetuados os diálogos de origem controversa, bem como o que faltava dos trabalhos básicos de Aristoteles. Como foi uma leitura e não um estudo recordo-me de ter gostado particularmente da estética do Banquete e do Crito.

O mundo de Parmenides Popper Unesp

Registro que a prosa de Platão seguramente é superior as notas de aula que redundaram no texto de Aristoteles. Entretanto, ainda acho que o melhor livro de filosofia que li no ano foi O mundo de Parmenides de Popper. Possivelmente o gosto me impede uma análise objetiva da matéria ou talvez seja a matéria que me defina o gosto. Certo é que é de se louvar a iniciativa da editora Unesp de traduzir a referida obra.

Passei em revista, ainda, algumas histórias da filosofia como a O mundo de Parmenides, o Dream of Reason de Anthony Gottlieb e o The passion of western mind de Richard Tarnas, tendo, ainda tentado me manter um pouco atualizado lendo os Tempos Líquidos de Zygmunt Bauman e as críticas cinematográficas de Slavoj Zizeck na sua Visão em Paralaxe. Também foi o ano que conheci Derrida através do seu L’ecriture et la différence. Por fim li um conjunto de textos que flerta com o transhumanismo no Mathematics, science and postclassical theory, obra que na matéria não alcança o patamar do clássico de Ray Kurzweil no seu The age of spiritual machines.

 

Partindo agora para o campo da ciência em sentido estrito, tenho que também foi um ano de leituras interessantes e agradáveis. Obra que me surpreendeu foi Amor e matemática de Edward Frankel, obra em que tive oportunidade coletar um autógrafo do próprio Frankel após um debate deste com o brasileiro Artur Ávila na Festa literária de Paraty. Confesso que antes de efetuar sua leitura não tinha grandes expectativas em relação ao livro que conseguiu me prender do começo ao fim, juntando matemática e autobiografia. Talvez a existência do famoso vídeo produzido por Frankel tenha me feito duvidar da sua qualidade literária, o que me obriga agora a dar a mão à palmatória.

Amor e matemática de Edward Frankel

Outra obra interessante, mas esta um pouco mais científica e menos biográfica foi Matemática e Natureza de Michael Janos, obra em que a visão e clareza do autor são capazes de empolgar e transformar em leitura leve temas que a depender do expositor se tornam por demais complicados. Aliás, em matéria de descomplicar recomendo também a exposição que Charles Pinter faz da álgebra abstrata incluindo a teoria dos grupos, tema cujas explicações que até hoje vi mostram-se por demais complicadas para serem entendidas por um leigo curioso sem formação superior em matemática ou na área de exatas.

Matemática e Natureza de Michael Janos

Além disso li mais uma história da matemática, desta vez a de Florian Cajori, e A evolução das ideias na física de Antonio Pires, o que me permite manter aberto a entender o que está acontecendo fora da ramo restrito da minha área de formação. Abro um parêntese para louvar a qualidade das obras editadas pela editora Livraria do físico, que só vem crescendo com o correr dos anos. Para encerrar a retrospectiva matemática não poderia deixar de mencionar o divertido Alex através do espelho em que Alex Bellos também impressiona pela simplicidade ao transmitir ideias matemáticas cuja compreensão não seria tão fácil a depender das qualidades do expositor.

Já para encerrar os livros sobre ciência, lembro ainda de ter gostado do relato de David Peat acerca da teoria das supercordas livro com o qual trombei por acaso na agradável Skoob books de Londres e que talvez seja responsável por ter me desviado um pouco da literatura neste ano. Desde a leitura dos primeiros livros de Brian Greene não deixa de me surpreender o quanto alguns aspectos da física moderna são estimulantes à imaginação. Aliás, por causa disso, acabei descobrindo que tinha outra obra de Peat que havia comprado em uma viagem a Buenos Aires, talvez fascinado pelo seu título que forma uma bela ponte entre matemática e literatura. Trata-se da edição espanhola de Looking Glass Universe traduzida para o espanhol por Atraves del maravilloso espejo del universo cuja capa com a foto de Alice e um labirinto bem ilustra o nível de imaginação a que têm chegado a física moderna.

Atraves del maravilloso espejo del universo

Foi também um ano bom para a leitura de biografias, gênero que nunca foi o meu predileto. Além da pequena autobiografia do Stephen Hawking, que li embalado por ter assistido um filme sobre a vida deste e de parte da biografia da ex-esposa de Hawking, senti com o livro a sensação agradável de relembrar as leituras de O universo em uma casca de noz, Uma breve história do tempo e a Teoria de Tudo, obras que li em períodos diferentes da minha vida. Cada uma delas me fez relembrar a surpresa e o espanto que foi descobrir que os buracos negros que sempre me fascinaram desde a infância emitiam a radiação que acabou levando o nome do próprio Hawking. Foi aí que conceitos como entropia e a teoria da informação começaram a me dar a noção de que nem matéria e nem energia, tudo é feito exclusivamente de informação.

A-Minha-Breve-História

Além disso, li com prazer a biografia de Emmy Noether, matemática que é reconhecida por alguns, dentre os quais Einstein, Weyl e Wiener como a mulher mais importante da história da matemática, bem como mais uma biografia sobre o matemático fictício Nicolas Bourbaki, essa publicada pela Associação Americana de Matemática cuja exposição me fez inclusive acreditar, provavelmente de modo equivocado, que tenho condições de compreender um pouco da matemática moderna. O livro recebeu o título Boubaki, a secret society of Mathematics.

Boubaki, a secret society of Mathematics.

Por fim, vejo com pesar que infelizmente não gostei de nenhuma das biografias que acabei adquirindo na libraire Eyrolles, o que infelizmente não faz jus a qualidade dessa livraria que de fato é de cair o queixo. Uma sobre o lógico Kurt Gödel que não se compara ao agradável livro de Rebecca Goldstein, a primeira biografia que li de Gödel, isso já há quase dez anos e outra sobre Srinivasa Ramanujan.

Para finalizar, li ainda uma boa biografia sobre o autor de ficção científica Philip K. Dick. Apesar de discordar das hipóteses construídas pelo autor Anthony Peake que com sua hipótese neurológica acabou transformando a biografia de K. Dick em um romance de K. Dick, não posso deixar de louvar o esforço de Peake em fazer uma análise da obra do autor de O homem do castelo alto e Do androids dream of electric sheep, obra que deu origem ao clássico Blade Runner.

a-vida-de-philip-k-dick

E já que o tema alcançou a ficção científica, foi também o ano em que li uma espécie de biografia de um autor de ficção científica que acabou se notabilizando no campo da religião. A obra de Lawrence Wright, publicada no Brasil com o título A prisão da fé narra a história de L Ron Hubbard, o controverso fundador da Dianética, ciência essa que acabou servindo de mote à criação da igreja da cientologia. A obra de Wright não é somente uma biografia, as vezes adquirindo ares de estudo antropológico e até mesmo de reportagem investigativa. Por coincidência o próprio Hubbard é parodiado em um conto de Dick, no qual existe uma casta religiosa chamada bardos (bards), cujo líder é um personagem cujo nome é Elron Hu.

A prisão da fé Lawrence Wright

Antes, no entanto, de chegar às obras de ficção científica, já que me enveredei pela esfera da religião bom enfatizar que esse foi também o ano em que li o excelente primeiro tomo do estudo antropológico de Mircea Eliade sobre a história das crenças e ideias religiosas, obra que apesar de não chegar ao nível do clássico The golden bough de Sir James George Frazer é uma obra de fôlego cuja leitura do primeiro volume recomendo. Aliás, outra obra em que parei no primeiro volume foi a Mitologia grega de Junito de Souza Brandão, complemento necessário a leitura dos clássicos, bem como dos comentários modernos como as obras de Bulfich e Hamilton.

 

Agora sim, a ficção científica. Não foi um ano de grandes descobertas na matéria. As antologias que li não foram as melhores e acabei, por incrível que possa parecer, lendo apenas um romance na área. Acho que situações de aperto com muito volume de trabalho talvez sejam incompatíveis com a leitura de romances, os quais exigem maior dedicação e disciplina para não se perder o fio da meada. Após conferir meus registros vejo que meu único livro foi o de Philip José Farmer, To your scatered bodies go, vencedor do prêmio Hugo de 1972, que já esperava algum tempo na fila. Apesar da ausência de um plano definido para o romance, a visão de Farmer parece eficaz e ao mesmo tempo assustadora na sua concepção de vida após a morte. Apesar do absurdo da trama, o livro parece trabalhar no nível do subconsciente, sendo impossível ao leitor permanecer o mesmo após reagir a personagens tão dissimiles quanto os ressuscitados Richard Francis Burton, Alice Lidell e Hermann Göring.

Philip José Farmer, To your scatered bodies go,

A novidade do ano, entretanto, ficou por conta da descoberta de que empresas americanas estão vendendo cópias Fac-similares de revistas pulps que compuseram a golden age da ficção científica permitindo-me a aquisição e a leitura parcial do primeiro volume da Amazing Stories e da Astounding stories of super-science. Além disso foi o ano em que li o excelente estudo de Roberto de Sousa Causo intitulado Ficção Científica, fantasia e horror no Brasil, livro este que certamente me deu o estímulo necessário para retomar a leitura de obras de ficção científica.

Também não foi um ano de ler muita poesia. Acabei me restringindo a um livro de Heine, cuja beleza da imagem, apesar de não ser novidade para mim, assegura seu lugar eterno na minha lista de melhores livros que li. Trata-se de um canto que as vezes ressoa com a Odisseia, mas que é desconhecido da maior parte dos personagens desta. Talvez, Ulisses tenha sido o único a inferi-lo, de modo que se pudesse ouvir o canto de Heine certamente se reconheceria ao ver uma mulher penteando seus cabelos dourados causar um naufrágio no Lorelei.

Ah, como se todos os poemas não ressonassem a Odisseia. Seguramente este vale por todo um ano de poesia que li. Bem, hora de relembrar o teatro. Foi um ano dedicado à leitura de Eurípedes. A leitura do mais trágico dos poetas, só veio a corroborar minha visão de que nenhum dos tragediógrafos gregos se igualou a Ésquilo. Coincidiu que aquela que considero a melhor peça de Eurípedes era a única que já tinha lido em ano anterior, motivo pelo qual acabei não lendo Medeia, o que é uma verdadeira pena.

 

O ano de romances em geral, pelos mesmos motivos que citei ao falar dos romances de ficção científica também não foi um grande ano. Ressalvados os que não registrei, o que é bem possível em ano de muito trabalho, recordo de ter lido o Retrato de um artista quando jovem, obra da qual possivelmente algumas passagens acabam de sair oficialmente do Sistema Solar a bordo das sondas Voyager, a não ser que esteja confundindo e elas embarcaram na Pionner.

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Li ainda um romance que foi concebido como um grafo a partir da pena de Georges Perec, se é que A arte e a maneira de abordar o seu chefe para pedir um aumento pode ser considerado um romance. Recordo ainda um romance de Roberto Bolaño, Os sinsabores del verdadeiro policia, obra que apesar de divertida e de contar com os personagens Benno von Arcimboldi e Amalfitano não está no mesmo nível de 2666 e de Os detetives selvagens. Por fim consta dos meus minguados registros de 2015 o Golem de Gustavo Meyrink e Os sonhos de Einstein de Alan Lightman, obras que apesar de divertidas não se encontram entre os grandes romances já escritos.

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