Literatura Acidental

Um dos aspectos mais interessantes na aquisição e leitura de livros velhos ou antigos (abstraindo-me aqui da tentativa de diferenciá-los) é que podemos ter um vislumbre de um outro modo de viver e pensar. Transportamo-nos para outro paradigma de mundo e sociedade e podemos enxergar algo de uma nova forma. Vez por outra, topamos com algo tão alienígena que um texto de não-ficção nos ressurge como uma quase obra literária, uma literatura que chamo aqui de acidental.

Isso é o que acontece neste volume do The Annual Register or a View of the History, Politics and Literature For the Year 1761 (Londres, 1786), em que uma descrição que se deseja acurada nos parece um adorável miniconto que ora compartilho em improvisada tradução:

Descrição de uma Terra Branca da qual pão é fabricado. Do German Ephemerides.

Nas terras de Moscaw, na Lusácia Superior, uma citadela com Terra Branca pode ser encontrada, da qual os pobres, empurrados certamente pelas calamidades da guerra naquelas partes, fazem pão. Ela é retirada de um morro do qual se extraía no passado salpetre. Quando o sol esquenta suficientemente o solo, surgem rachaduras, e pequenos glóbulos brancos de alimento se formam; eles não fermentam sozinhos, mas somente quando misturados com comida. Sr. Sarlitz, um cavalheiro saxão, gentilmente nos informou que conheceu pessoas que, em grande medida, sobreviveram da Terra Branca por algum tempo. Ele nos assegura que obteve pão feito exclusivamente dessa terra, e de diferentes misturas de terra e comida, e que até mesmo  conservou consigo alguns desses pães por até seis anos; ele ainda diz que, como um espanhol lhe teria informado, essa terra é também encontrada perto de Girona na Catalunha.

 

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