O Tempo e os Conway

A editorial Losada de Buenos Aires publicou em janeiro de 2005 uma tradução das three times plays de J.B. Priestley. As três peças que compuseram a trilogia apresentam cada uma uma visão diferente do tempo, sendo a segunda delas, que é objeto de atenção nas presentes linhas, redigida sob a influência da teoria do tempo de J. W. Dunne. Para Dunne tanto o futuro como o passado formam um bloco único, estando todos já cristalizados, sendo a diferença exclusivamente que enquanto o primeiro é acessível pela memória, o acesso ao último só seria possível através dos sonhos.

I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore.

O experimento temporal de Dunne reverbera na peça na medida em que, enquanto o primeiro ato e o último se passam em uma noite de outono de 1919, o segundo ocorre na atualidade. Em livro publicado em 1999, o físico Julian Barbour nega a existência do tempo criando o conceito de time capsules para justificar o que na sua impressão repercute na falsa impressão que temos deste. A ideia de Dunne parece flertar com essa possibilidade inusitada de que a realidade é estática que nem um rolo de filme, o que, no entanto, não nos impede de perceber que o segundo ato é posterior ao último.

Ocorre que como bem disse Borges em nota produzida sobre o tempo e os Conway, o mérito da referida peça não se restringe à sua experimentação temporal. A percepção de que escolhas definidas em uma única data puderam selar o destino triste de muitos personagens, só vem a corroborar a tese de que o tempo existe e é muito real. Tão real quanto os fantasmas de Hamlet que a par da sua possível inexistência são capazes de movimentar as engrenagens que definem todo o destino da trama.

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