Clandestino

Este era o meu quarto: um cômodo apertado, sem entrada de ar ou luz, e cujas paredes os anos terminaram por descascar. Servia de minha cama um empoeirado colchonete e meus poucos pertences permaneciam em sacolas amontoadas ao chão. Ali também fazia minhas refeições, comendo frio aquilo que trazia comigo. Quando a residência foi idealizada, não sei qual propósito foi designado a este espaço, mas imagino que possa ter sido de um depósito de material de limpeza ou quarto de despejo. Grandes períodos de tempo dispendi em silêncio no meu pequeno dormitório sempre que pensava em sair, aguçando meu ouvido para me certificar de que não havia mais ninguém na casa. Ao cabo, porém, julgava-me bem-aventurado por possuir um teto que me protegesse do sereno, do sol e da chuva.

Não sabemos em absoluto do que somos capazes até que a oportunidade de tomarmos algo que desejamos aparece. Foi assim que comecei a morar naquele aposento. Aproveitando-me de um momento de distração, esgueirei-me pela porta entreaberta, andei por toda a extensão da residência e esbarrei com o pequeno cômodo vazio, localizado ao fim de um lance de escadas. Tomei posse, então, de uma cópia da chave da porta principal que achei na cozinha e cuja cópia providenciei. Passara a adotar, desde aquela data, todo o cuidado para entrar e sair, utilizando-me sempre dos momentos em que percebia que o domicílio se encontrava vazio. Vez por outra, por uma fresta da porta, podia acompanhar a movimentação da família: o pai ajudando a filha com o dever-de-casa, a mãe assistindo um pouco de televisão. Pergunto-me, às vezes, se a minha persistência em permanecer ali não era devido em parte ao prazer que encontrava em observar-lhes a pacata vida e a sentir-me, por via transversa, parte dela.

Em nenhum momento, tive ilusões de que minha morada era algo mais do que precária, mas contentava-me em usufruir do presente, guardando as preocupações com o futuro para quando elas fossem necessárias. Um dia, entretanto, como era esperado, o inevitável aconteceu. Após me certificar de que toda a família já havia deixado a casa, saí de meu quarto, mas, em vez de atravessar rapidamente a sala para alcançar a rua, resolvi parar na cozinha para verificar se havia algo que houvesse sobrado do café da manhã e que pudesse aproveitar . Distrai-me um pouco comendo e, quando retornei para sair, deparei com a família, o homem, a mulher e a filha, que retornavam pelo corredor.

Julgo que o susto deles foi tão grande quanto o meu. Senti o sangue afluir à minha face e minhas mãos se umedeceram e gelaram. Um lampejo de violência cintilou nos olhos do homem e o interpretei como disposição de lutar. Temendo pela minha segurança, ergui minha mão em sinal de paz e me preparei para lhes falar. Tentei recordar naquele instante o discurso que houvera engendrado e ensaiado para quando o inevitável momento do encontro chegasse. Antes, contudo, que eu pudesse falar, o homem se dirigiu a mim:

_ Calma. Calma, por favor. Deixa eu explicar. Foi errado, eu sei, mas não tivemos escolha. Não tínhamos onde ficar, então ocupamos de forma clandestina um quarto vazio que você não usa aqui na frente. Está chovendo lá fora. Peço, por favor, ao senhor que nos dê mais uns dias até encontrarmos outro lugar.

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