An inspector calls

No livro apócrifo de Susana (The New Oxford Annotated Bible, Apocrypha, p. 194-197) aparece o que na visão de alguns é o precursor do romance policial. Um caso de estupro é resolvido por meio de raciocínio lógico, sendo o argumento que leva à sua elucidação trazido pela própria vítima que inicialmente figura como acusada por crime diverso. Coube ao genial Edgard Allan Poe agregar a esse tipo de enredo o expediente de ocultar do leitor a identidade do criminoso, permitindo a este se antecipar as conclusões do investigador ou até mesmo competir com este na solução do caso.

Nessa arte se especializaram Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, os quais posteriormente abriram caminho para o falcão maltês de Dashiel Hammet, as aventuras de Marlowe e as investigações francesas do inspetor Maigret. Coube ao gênio de J. B. Priestley transpor para o teatro um gênero que por definição parecia mais apropriado as páginas de romance ou às telas do cinema.

A peça An inspector calls é daquelas que podem ser incluídas dentre as peças temporais de Priestley fazendo par com Time and the Conways, Dangerous Corner e I have been here before. Ao contrário das outras, entretanto, no qual o tempo e a causalidade parecem ser os centros de gravidade a partir dos quais se desenvolve toda a concepção teatral, o chamado do inspetor se aproxima mais do gênero fundado por Poe.

É que ao contrário das outras peças temporais de Priestley, nesta a solução dada pelo dramaturgo pode ser vista como um Deus ex machina. O tempo, a causalidade e seus percalços não se apresentam como objeto da peça em si, mas como artifício construído para o seu epílogo. Epílogo no qual, aliás, fica patente o amor de Priestley pelo fantástico.

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