Bibliotheca Mariana

Alfonsina de Glaura foi escolhida pelo espírito na primeira noite de núpcias e teve, então, o primeiro dos muitos sonhos que a atormentaram a princípio e a fascinaram em seguida. Seu marido, inconsciente do início dos eventos que vão aqui descritos e que resultaram em trágico desfecho, dormia a seu lado enquanto ela era transportada para um passado que demorou a identificar como sendo a Mariana de 1753. O estudo constante da doutrina kardecista, as várias incorporações que realizara no centro espírito de sua pequena cidade, seu conhecimento da literatura brasileira e uma insaciável curiosidade pareceram-lhe a óbvia razão de sua escolha como arauto da entidade e somente tarde demais percebeu que se enganava. Nem nessa primeira noite, nem nas subsequentes, foi-lhe franqueada a direta visão de pessoas, das casas, das ruas, das festas, das missas, do árduo trabalho dos escravos nas minas e dos víveres transportados penosamente pelos estreitos caminhos, mas apenas páginas e páginas de escritos, ora impressos, ora manuscritos, e uma mão que os copiava, a manga da camisa ou os punhos nus constantemente manchados pela tinta aplicada à ponta da pena. Apenas no terceiro dia consecutivo dos sonhos, identificou o título da obra em gestação, Bibliotheca Mariana, o ano de sua confecção, 1753, e o nome de seu autor, Isidoro do Carmo.

Alfonsina não duvidou da natureza mediúnica das visões. Em sonhos ordinários de seu passado, acostumara-se à incerteza dos livros, dos textos e até dos mostradores de relógios que neles apareciam, pacificara-se com a impossibilidade de deitar os olhos em obras criadas por sua própria mente e lê-las, como se um mundo imaginário como o da literatura não pudesse ganhar concretude dentro de um universo também circunscrito ao pensamento. Nessas novas experiências espirituais, contudo, as páginas que passavam pela visão de Isidoro do Carmo eram por demais reais, e, após despertar, Alfonsina ainda sentia o cheiro e a textura do papel e recordava os textos neles lançado como se ela os houvesse lido durante a vigília. Esses sonhos também não eram compostos por memórias de sua vida ou por conhecimentos que já detinha, mas continuamente lhe ampliavam o entendimento pela exposição de novas formas de ser e de pensar, irrefutável evidência de que provinham de outra consciência.

Desde criança, quando se distraía folheando enciclopédias, Alfonsina era atormentada por uma fome, uma ânsia de acumular todas as ciências humanas, de saber tudo aquilo que uma pessoa poderia conceber e até mesmo, e talvez fosse essa a razão última de sua conversão ao espiritismo, aquilo que lhe seria proibido contemplar. Na segunda semana, por uma extensa carta que Isidoro do Carmo escrevia a um nome que ela foi reencontrar na história da literatura mineira, Sancho Pansa de Apolo, soube que, temendo a perseguição das forças da Coroa Portuguesa, o manuscrito da Bibliotheca Mariana houvera sido enterrado junto à ruína de um muro de pedras, perto do topo do Morro da Queimada na então Vila Rica. Na mesma missiva, espantou-se com a revelação da existência, na antiga Vila do Carmo, rebatizada Mariana, de uma vibrante e oculta comunidade intelectual e literária cujas obras, anônimas ou assinadas por pseudônimos, circulavam em edições mal executadas em prensas clandestinas ou pela cópia manual dos textos. Descobriu, por fim, a natureza do manuscrito preparado por Isidoro do Carmo, também este provavelmente um pseudônimo.  A Bibliotheca Mariana, quando completada, o que não sabia se o espírito houvera alcançado em vida, seria um compêndio das principais obras literárias produzidas nas Minas de Ouro na sua curta existência até aquele ano de 1753. Pelo confronto de alguns trechos da Bibliotheca com obras de referência e estudos dos primórdios da literatura em Minas Gerais, Alfonsina maravilhou-se ante a descoberta de que a quase totalidade dos livros citados não houvera sobrevivido à passagem do tempo e conjecturou que o espírito a contatara para que ao menos a notícia de sua pretérita existência se salvasse.

Seu imediato impulso foi o resgate do manuscrito e, para tanto, fingiu a seu marido necessidades de trabalho, reservou por alguns dias um quarto em uma pousada e viajou a Ouro Preto. No segundo dia de incursões pelo Morro da Queimada, foi flagrada e repreendida na tentativa de escavar perto de um monte escurecido de pedras, e se retirou envergonhada. Entendeu, então, que sua mediunidade não daria sustentáculo legal a projetos arqueológicos e conformou-se em aceitar a reconstituição pela espiritualidade como o único meio de fazer renascer a Bibliotheca Mariana. Alfonsina passou a dormir com um caderno e uma caneta no criado-mudo e a lançar no papel os pedaços de texto que lhe eram revelados por Isidoro, disfarçando o seu secreto propósito na roupagem de uma mania esotérica, uma mera anotação de sonhos a serem analisados posteriormente sob a luz de seu horóscopo. A impossibilidade de resgate físico do manuscrito não passara despercebida ao espírito e as visões da mão de Isidoro do Carmo a fazer anotações e dos textos impressos e manuscritos que consultava retornaram com redobrada angústia, com desmedida urgência, como se o tempo de uma única vida fosse pouco para a grandiosidade da tarefa a que se propunham.

O pseudônimo mais citado no manuscrito da Bibliotheca Mariana, Alfonsina brevemente descobriu, era o de Sancho Pansa de Apolo, destinatário da carta que causou suas incursões ao Morro da Queimada em Ouro Preto. Suas únicas obras oficiais, dois poemas recitados quando da chegada do bispo Frei Manoel da Cruz a Mariana e reunidos no Áureo Trono Episcopal (1749), ressurgiam pálidas em comparação a sua obra oculta, especialmente seu interesse pela formação histórica da região das Minas de Ouro.  O primeiro registro seu na Bibliotheca era de uns Breves Comentários à ‘Relação Panegírica’ de Domingos Cardoso Coutinho (1742), e, logo depois, um Adendo ao ‘Descobrimento das Esmeraldas’ de Diogo Garção (1742). Ambas as obras resultando de um desejo de guardar à posteridade os eventos que se passaram nas primeiras décadas da ocupação da região das minas foram incorporadas nos três volumes da Antiguidade dos Paulistas e as Guerras pelo Ouro (1743). Dois capítulos desse relato histórico foram posteriormente ampliados por Sancho Pansa de Apolo e corporificados em relatos independentes.  A Retirada dos Cinco Mil (1745) descreveu em fortes tintas a grande fome de 1700-1703, a marcha extenuante da subnutrida população pela imensidão das serras em uma tentativa desesperada de se salvar e o triste espetáculo dos milhares que sucumbiram na região que passou a ser designada como Campos da Caveira. História, sendo um relato da Grande Guerra na região das Minas de Ouro nos anos de 1707 a 1709 (1747) concentrava-se em descrever as lutas entre paulistas e emboabas no começo do século e, segundo a Bibliotheca, deveria ser relembrada em especial pela descrição das batalhas de Cachoeira do Campo, após a qual um emboaba, para dar notícia da derrota dos paulistas, cobriu em contínua corrida as traiçoeiras trilhas que se dependuram na serra entre essa localidade e Vila Rica, e de Capão, na qual trezentos paulistas, encurralados pelo grosso do exército emboaba em uma pequena porém densa mata, resistiram bravamente por dois dias antes de se renderem e serem chacinados. Por fim, o registro de um Tratado dos Usos do Sacrifício Humano nos Rituais Indígenas (1750), estudo do mesmo Sancho Pansa de Apolo, impressionava pela presença de um relativismo antropológico inusitadamente avançado.

Após a terceira semana de revelações, e com cinco ou seis páginas contínuas de apontamentos, Alfonsina contemplou com assombro a facilidade com que podia ler a letra de Isidoro do Carmo e como o português arcaico da Bibliotheca Mariana lhe era revelado em um registro verbal mais moderno. A princípio, pareceu-lhe que o espírito funcionava como tradutor da própria obra, tornando-a mais acessível à médium, mas, posteriormente, compreendeu que enquanto duravam as visões a entidade coabitava sua mente. Alfonsina e Isidoro partilhavam, naqueles instantes, uma mesma consciência e as memórias de um eram vivenciadas pelo outro sem interface, em perfeita comunhão de experiências. Essa compreensão foi provavelmente auxiliada pelo verbete de Fra Francisco Cisco. Sua entrada no compêndio precedia à do padre Francisco Xavier da Silva, autor, entre outras, das Exéquias do Ezequias Português (1753) e de um poema-cartaz, exposto em Mariana em 1748, que descrevia um emblema do Sol Mitra que o próprio poeta esculpira. Registravam-se outras obras do padre na Bibliotheca e Alfonsina descobriu, revisitando livros de história, que ele fora posteriormente preso pela difusão de panfletos impressos clandestinamente em defesa dos jesuítas. A proximidade entre os nomes lhe fez nascer a suspeita de que Fra Francisco Cisco fosse mero pseudônimo destinado a acobertar as obras que pudessem prejudicar o padre Francisco Xavier da Silva junto à igreja. A mais polêmica, sem dúvida, seria O Livro das Entidades (1744), um relato dos contatos entre mortos e vivos nas comunidades de escravos das lavras auríferas. Prenunciando o trabalho de Kardec em um século, a despeito da tentativa de Fra Francisco Cisco de adotar um tom cético e distante das crenças africanas, sua obra era o primeiro relatório científico do fenômeno mediúnico. Entre os assombros que registra, encontravam-se supostas provas da transmissão do conhecimento pela via espiritual entre gerações afastadas e a anotação da preferência das entidades por designarem a si mesmas e a suas anteriores encarnações na terceira pessoa. Rômulo Brasileiro (1746), novela picaresca de sua autoria, narrava as desventuras de um menino, filho de portugueses que trabalhavam nas minas de ouro, que, sequestrado e posteriormente abandonado por indígenas, era criado por vários animais selvagens da região e retornava, quando adulto, à civilização, aprendia o português, era mandado em estudos à Faculdade de Coimbra e regressava à Vila do Carmo para escrever e publicar um tratado sobre crianças ferais na mitologia e na literatura. Por fim, registrava a Bibliotheca como último produto da pena de Fra Franciso Cisco o ameno e prazeroso Tratado do Jogo de Xadrez, acompanhado de um método para melhor ensinar esse divertimento aos indígenas (1749).

Por intermédio da Bibliotheca, Alfonsina descobriu que outros membros da igreja também se dedicaram à literatura. Floriano de Toledo e Silva, capelão em Mariana, além de esparsos poemas em latim, como aqueles registrados na obra coletiva do Áureo Trono Episcopal (1749), foi o autor do Apocalypsis (1752), um épico que pinta a região das minas como o inferno e a divina punição à ganância e aos excessos como a contínua geração do ouro, a eterna e exaustiva colheita dos frutos inesgotáveis nas lavras. Tema semelhante abordou na peça teatral A Biblioteca de Deus (1753), na qual os personagens, após sua morte, descobrem que são culpados de se excederem em um ignorado oitavo pecado capital, a busca exagerada de conhecimento, e são então levados a um purgatório em forma de uma biblioteca infinita que deve ser percorrida até encontrarem o desconhecido livro que os tornará digno de acenderem aos céus. Utilizando-se de seus dotes musicais, compôs também uma ópera com base em libreto de Coelho Gato de Amorim, intitulada Paes Leme (1749) e que nunca teve a oportunidade de ver apresentada. Outro membro da igreja, Gregório dos Reis e Melo, mestre da capela da Sé de Mariana, publicou um romance tardio do ciclo de cavalaria de Palmeirim, Palmeirim de Sabarabuçu (1751), cujos capítulos eram apresentados fora de ordem e deviam ser percorridos em sequência que era revelada ao leitor paulatinamente de forma a impossibilitar que se intuísse quão distante estava o desfecho da história pela percepção física do montante de folhas restantes.

Após três meses das núpcias, Alfonsina e seu marido exultaram com o resultado do exame e ela o convenceu, sem lhe revelar a razão, que se menino fosse o filho do casal seu nome seria Isidoro. Essa agradável surpresa foi o único ponto de exclamação em um casamento que se iniciara e transcorria em calmas reticências. O caderno na cabeceira, uma versão simplificada da Bibliotheca Mariana, já tinha mais de vinte de suas páginas preenchidas e ainda havia muito a ser acrescentado, Alfonsina o sabia pelos pequenos vislumbres que tivera do tamanho do manuscrito original. Nomes e pseudônimos de autores da Mariana do meio do século XVIII sucediam em paralelo com dezenas de obras esquecidas e a gestação não fez diminuir sua curiosidade por essa ignorada parte da história. Terêncio Lebre, um dos pseudônimos que lhe despertou especial interesse, foi o autor de várias obras de linguística e gramática que trilharam curiosas vertentes, apresentando inusitadas proposições. No tratado com o título de Proposta para Correta e Precisa Ortografia da Língua Mãe (1739), Terêncio Lebre dedicou-se a analisar e rejeitar as convenções para a grafia do português, para, ao cabo, propor a adoção de novas regras que incluíam o uso de um conjunto de símbolos gráficos a se adicionarem às letras maiúsculas e minúsculas: os caracteres medianos. Outra de suas obras, Método para Criação de Romances (1741), estudo de evidente tom satírico, estabelecia uma série de regras a serem seguidas por aqueles que desejassem criar um texto ficcional que, se aplicadas, resultavam invariavelmente em uma autobiografia. Nos termos do prefácio desse tratado, o seu argumento era a extrapolação de um outro ensaio satírico, Dos Nomes e suas Funções (1739), de autoria de um Sílvio Bruno, cujo intento fora estabelecer e recomendar um procedimento para a escolha de pseudônimos que resultava ao final no próprio nome que se pretendia ocultar. O mais revolucionário dos estudos de Terêncio Lebre foi seu Dicionário de Termos Inexistentes (1752), um compêndio de significados para os quais não haveria palavra em qualquer dos idiomas humanos. Segundo a Bibliotheca, o Dicionário foi o resultado de uma vida inteira sacrificada ao estudo de idiomas estrangeiros e somente um poliglota poderia ousar listar o inexprimível. O maior dos problemas enfrentados por Terêncio Lebre foi que, se o ato de acariciar a sobrancelha de outrem é um conceito à espera de uma palavra, o ato de acariciar a sobrancelha de outrem em um dia chuvoso também o é, e o ato de acariciar a sobrancelha de outrem em um dia chuvoso com impaciência também. Em suma, o número de significados à espera de significantes é infinito e o autor resolveu o impasse concentrando-se exclusivamente naquelas ideias reconhecíveis de imediato como de grande utilidade. Isidoro do Carmo dedicou significativo espaço na Bibliotheca a transcrever alguns dos conceitos registrados no Dicionário, em clara demonstração de quanto o julgava importante. Na seção de substantivos, destacavam-se a sensação de que algo foi esquecido, o ato de retornar e ler novamente uma frase para melhor entendimento e o sinal corporal que designa algo que se diz como jocoso. Entre os adjetivos, de especial interesse eram a caracterização a ser aplicada a alguém que se utiliza em demasia de sons destituídos de sentido cuja finalidade é prender a atenção do interlocutor e a qualidade de um texto designado como satírico mas cujo propósito oculto é ser tomado a sério.  Entre os advérbios, estava aquele que se refere às próximas quatro horas e a designação de modo a ser aplicada a algo que embora ocorra por acidente é recebido com entusiasmo. Por fim, o Dicionário identificava a ausência de uma conjunção que estabelecesse uma relação cruzada de causa e efeito entre duas orações e que designasse que cada uma delas era ao mesmo tempo o antecedente e o consequente da outra.

Algumas páginas da Bibliotheca eram dedicadas a obras que circulavam anonimamente, em tácito reconhecimento de que o melhor pseudônimo era a ausência de qualquer indicação de autoria. Canções, operetas e peças musicais, representações teatrais, fábulas e até algumas novelas eram expostas brevemente e a possibilidade de que fossem obras coletivas ou folclóricas não podia ser esquecida. Alguns dos textos anônimos, todavia, dada a natureza complexa e coesa de seus argumentos, deixavam entrever a unidade da mente que as criou. A Antologia de Ideias, Doutrinas e Pensamentos Heréticos, por ofenderem a doutrina da Santa Igreja de Nosso Senhor ou a bondade e a irmandade de seus fiéis (1742) era um dicionário que ousara relacionar as ideias heréticas de veiculação proibida e cuja leitura, assim pelo menos Isidoro do Carmo comentara, causava grande desconforto. Estranhamente, um dos verbetes dessa Antologia era a própria confecção e publicação de uma antologia de ideias heréticas. Dos propósitos ocultos dos textos (s.d.), breve ensaio impresso clandestinamente, exercera grande influência em diversas mentes da região das Minas, tendo, ainda além, sido objeto de inúmeros debates que buscavam estabelecer se a proposta que apresentava para classificação literária era um recurso satírico ou uma ideia a ser levada a sério. Segundo esse ensaio, haveria uma preocupação excessiva em se determinar quem narra uma história e como ela é narrada, em detrimento de se estudar para quem a história é narrada e com qual propósito, e essas seriam as facetas realmente primordiais de um texto.

Alfonsina atravessou placidamente os meses de gravidez, em uma tranquila felicidade que seu marido atribuiu a Isidoro, seu futuro filho, mas que ela temia se dever mais a Isidoro, o espírito. O tempo mostraria que ambos estavam certos, embora por razões que ignoravam. Seu caderno pessoal de anotações já estava repleto de lançamentos e ainda muito parecia faltar da Bibliotheca para ser transcrito. As visões eram agora acompanhadas de uma sensação de inquietude, de um clímax que se aproxima, e era apenas lógico que as obras referenciadas se afastassem cada vez mais da estrutura clássica que se esperaria da literatura do século dezoito e adquirissem uma nota de vanguarda. O pseudônimo que personificaria essa deslocada modernidade era o sexualmente neutro Abmar Rios, que Alfonsina ousou sonhar ser uma mulher tal como a protagonista da sua novela, quiçá autobiográfica, Maria Ultramarina (1743), em que se pretendia, pelo uso de um simplório expediente, ocultar do leitor se o texto se encontrava escrito em primeira ou em terceira pessoa. Ideia semelhante foi explorada na continuação Maria Enamorada (1748), que se destacava pelo uso de uma proposital ambiguidade que tornava impossível determinar qual dos personagens envolvidos seria o narrador. O último dos livros de Abmar Rios foi também o último a ser transmitido em seus aspectos essenciais entre o espírito Isidoro e Alfonsina. A Multitude (1751) era um tratado literário que iniciava tentando listar, descrever e classificar os diversos tipos de personagens ficcionais, mas que terminava por estranhamente demonstrar que todos poderiam ser reduzidos a uma mesma individualidade.

No oitavo mês de gestação, Alfonsina e seu marido ingressaram com ansiedade no hospital e, quatro horas depois, seguraram o pequeno e saudável Isidoro em seus braços. A ausência de visões naquela noite no hospital e nas seguintes em sua casa não foram especialmente notadas por Alfonsina, envolvida nos cuidados iniciais do bebê, mas eventualmente as platitudes de seus sonhos a incomodaram. Ela sabia que ainda havia muito da Bibliotheca Mariana a ser transmitido e desesperadamente tentou a meditação, a auto-hipnose, preces, invocações espirituais, tudo enfim a seu alcance para persuadir o espírito a retornar, mas sem êxito. Alfonsina passou a dedicar largo tempo a folhear seu caderno, a estudar as obras listadas e a fantasiar o prazer de ter aqueles livros perdidos em suas mãos. Inexoravelmente o desejo de retomar o contato com Isidoro tomou-lhe a consciência, empurrando as preocupações com seu filho e seu marido para um patamar inferior. Essa obsessão desaguaria na tragédia que foi o objeto de interesse da imprensa de sua cidade. Dois meses após o nascimento de Isidoro, em uma triste madrugada, Alfonsina, ao lhe acalentar, finalmente compreendeu a verdade.  Desesperou-se então na reflexão de que a um espírito encarnado não é dado o privilégio de se lembrar de vidas anteriores e que ela nunca veria a Bibliotheca Mariana completa caso prevalecesse a ordem natural que determina que os filhos devam sobreviver aos pais. Com lágrimas nos olhos, mas com firme convicção, Alfonsina apertou a garganta de Isidoro até o notar sem respiração. Não lhe restava outra solução ao seu desejo de completar a Bibliotheca senão o contato direto com sua fonte, e, após depositar o corpo inerte de seu filho no berço, com um punhal guardado na cozinha, suicidou-se.

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